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quarta-feira, 4 de julho de 2012

Deus é ínsito, não está em lugar nenhum fora de nós.

As palavras abaixo são de Baruch Espinoza - nascido em 1632 em Amsterdã, falecido em Haia em 21 de fevereiro de 1677, foi um dos grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz. Era de família judaica portuguesa e é considerado o fundador do criticismo bíblico moderno.
Acredite, essas palavras abaixo foram ditas em pleno Século XVII.
  



DEUS SEGUNDO SPINOZA (Deus falando com você)


“Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.
Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa. Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti. 
Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau.
O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.
Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho... então não me encontrarás em nenhum livro!
Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?
Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.
Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio.
Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?
Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.
Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia. 
Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas. 
Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse. Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei. E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste... Do que mais gostaste? O que aprendeste?
Pára de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.
Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam. Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo. Te sentes olhado, surpreendido?... Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.
Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações? Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro... aí é que estou, batendo em ti."


Einstein, quando perguntado se acreditava em Deus, respondeu: “Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens”

Pense nisto

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Este texto me chegou por e-mail enviado pelo prof. Vinícius
Professor de Filosofia de Minas Gerais.

sábado, 16 de junho de 2012

Freud e a psicanálise

Sigmund Freud, com sua teoria do “inconsciente”, revolucionou a maneira como as pessoas pensam sobre a mente. O inconsciente é o aspecto da mente que abriga vontade e desejos que não são conscientemente reconhecidos. Essas vontades foram reprimidas, ou negadas pela mente consciente porque não são socialmente aceitáveis. Em conseqüência disso, você reprime esses desejos, você os ignora e chega a negá-los, mas eles não desaparecem. Eles permanecem em seu inconsciente, esperando uma oportunidade de vir à tona.
Ainda que não pensemos neles, os desejos reprimidos  têm formas de se manifestar. Os sonhos são uma dessas formas; as piadas são outra. Às vezes, se forem especialmente fortes ou tiverem sido profundamente reprimidos, talvez devido a uma experiência traumática na infância, esses desejos retornarão na forma de comportamentos estranhos como compulsões, obsessões e ataques histéricos.
Embora os desejos reprimidos de certas pessoas dêem mais trabalho do que de outras, todos nós temos esses desejos. Freud identificou um complexo de desejos reprimidos com que os homens têm que lidar: o Complexo de Édipo é a fase pela qual a criança passa quando se sente competindo com o pai pelo amor da mãe. Esse complexo às vezes persiste na vida adulta. Muitos homens têm dificuldade em superar essa fase. Eles nunca adquirem independência em relação à mãe e nunca aprendem a lidar com a autoridade. Lidar com a autoridade é o preço que pagamos por viver em civilização. Não é agradável, mas é necessário, apesar da tensão que cria em nossas psiques.
A maneira de Freud fazer interpretações deu origem à prática da psicanálise: interpretar o que as pessoas dizem para descobrir seus problemas.

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Adaptado de : STEVENSON, Jay. "O mais completo guia sobre filosofia", Mandarim, 2001.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A Filosofia Contemporânea

A filosofia contemporânea pode ser vista como resultado da crise do pensamento moderno no século XIX. O questionamento ao projeto moderno se faz nos termos de um ataque à centralidade atribuída à noção de subjetividade nas tentativas de fundamentação do conhecimento empreendidas pelas teorias racionalistas e empiristas. A linguagem surge então como alternativa de explicação de nossa relação com a realidade enquanto relação de significação. A questão sobre a natureza da linguagem, sobre como a linguagem fala do real, torna-se um problema central na filosofia e em outras áreas do saber na passagem do século XIX para o século XX.
Os variados ramos da filosofia surgidos nessa época são a psicologia freudiana, a sociologia, a antropologia, a filosofia analítica, o existencialismo e a lingüística estrutural. Essas abordagens têm em comum o interesse pelo significado. Em que consiste? O que o torna possível? Como funciona?
Alguns sentiram que estudar os impulsos psicológicos era a melhor maneira de explicar como funciona o significado. Para outros, era estudar a sociedade, a cultura, a linguagem, a lógica ou a consciência. Várias abordagens diferentes começam a desenvolver seus termos e técnicas para investigar o significado.
A simples existência dessas vertentes, muitas vezes profundamente divergentes entre si, e nem sempre tendo raízes comuns, revela a centralidade do interesse pela questão da linguagem no pensamento contemporâneo. A análise da linguagem torna-se assim o caminho para o tratamento não só de questões filosóficas, mas de questões dos vários campos das ciências humanas e naturais no pensamento contemporâneo.
  Quando falamos em crise da modernidade, podemos apontar três grandes rupturas que transformaram profundamente as nossas maneira de conceber o homem e o conhecimento:
- a revolução copernicana: ao retirar a Terra do centro do universo, Copérnico abala as crenças tradicionais do homem da época que passa a buscar um novo lugar seguro para superar a alteração da explicação tradicional;
- a revolução darwiniana: abala profundamente a crença na superioridade humana, no homem como o “rei da criação”, na medida em que revela o homem é apenas mais uma espécie natural dentre outras e que a espécie humana resulta de um processo de evolução natural, tendo ancestrais comuns com o macaco, portanto, não mais uma criação divina – o “rei da criação”.
- a revolução freudiana: a teoria psicanalítica de Sigmund Freud e sua descoberta do inconsciente – o homem não se define pela sua racionalidade, e sua mente não se caracteriza apenas pela consciência, mas ao contrário, nosso comportamento é fortemente determinado por desejos e impulsos de que não temos consciência e que reprimidos, não-realizados, permanecem entretanto em nosso inconsciente e manifestam-se em nossos sonhos e em nosso modo de agir. 

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sören Kierkegaard (1813 – 1855)

 O filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard contestou a supremacia da razão como único instrumento capaz de estabelecer a verdade, tal como  Hegel havia proposto. Como pensador cristão, defendeu o conhecimento que se origina da .
Kierkegaard afirmava que a existência humana possui três dimensões:
 - a dimensão estética: na qual se procura o prazer;
 - a dimensão ética: na qual se vivencia o problema da liberdade e da contradição entre o prazer e o dever;
 - a dimensão religiosa: marcada pela fé.
De acordo com o filósofo, cabe ao ser humano escolher em qual dimensão quer viver, já que se trata de dimensões excludentes entre si. Essas dimensões podem ser entendidas, também, como etapas pelas quais o ser humano passa durante sua existência: primeiro viria a estética, depois a ética e, por último, a religiosa, que seria a mais elevada.
Kierkegaard afirma que essas dimensões são atingidas por um salto , pois não há razões racionais para tomar essa medida. Isso acontece porque o mais importante é a verdade de sua própria situação e essa é a verdade subjetiva que somente você é capaz de conhecer. Este filósofo foi extremamente influente por enfatizar a importância do sentido pessoal  na vida do indivíduo.
Os escritos do autor possuem grande beleza literária e tratam de temas estranhos à objetividade científica de sua época, tais como amor, sofrimento, angústia e desespero, que segundo ele não podem ser entendidos pela razão. Sua principal crítica à filosofia hegeliana deve-se ao fato de ela não levar em consideração a subjetividade humana.
É nesse sentido  que Kierkegaard influenciará as chamadas correntes irracionalistas e existencialistas, que recolocam a questão da verdade a partir do processo da existência. Para ele, nenhum sistema de pensamento consegue dar conta da experiência ampla e única da vida individual.
Opondo-se à filosofia sistemática de Hegel e a seu caráter abstrato, Kierkegaard procurou destacar as condições específicas da existência humana e incorporá-las às reflexões filosóficas. Por isso, é normalmente considerado o “pai do existencialismo”.
Em sua obra, Kierkegaard procurou analisar os problemas da relação existencial do ser humano com o mundo, consigo mesmo e com Deus.
- a relação do ser humano com o mundo: é dominada pela angustia. A angustia é entendida como o sentimento profundo que temos ao perceber a instabilidade de viver em um mundo de acontecimentos possíveis, sem garantia de que nossas expectativas sejam realizadas. “no possível, tudo é possível”. Assim, vivemos em um mundo onde são possíveis tanto a dor como o prazer, o bem como o mal, o amor como o ódio, o favorável como o desfavorável.
- a relação do ser humano consigo mesmo: marcada pela inquietação e pelo desespero. Isso ocorre por duas razões fundamentais: ou porque o ser humano nunca está plenamente satisfeito com as possibilidades que realizou, ou porque não conseguiu realizar o que pretendia, esgotando os limites do possível e fracassando diante de suas expectativas.
- a relação do ser humano com Deus: a única via para a superação da angústia e do desespero. Contudo, é marcada pelo paradoxo de ter de compreender pela fé o que é incompreensível pela razão.

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Fonte: Cotrim, Gilberto. Fundamentos de Filosofia.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Como tornar-se o que se é – Nietzsche (1844-1900)

Nascido em 15 de outubro de 1844, Friedrich Nietzsche foi um grande pensador, um dos mais influentes de nossa época. Sua crítica radical das idéias e valores da modernidade não exclui as ciências, as artes, nem mesmo a política modernas, que para o autor, são apenas versões laicas do cristianismo, ou seja, totalmente impregnados pela moral cristã. Pretende criar com essa crítica, um novo tipo de homem, um tipo nobre, que diz “Sim” à vida!
Conhecido como o filósofo que constatou a “morte de Deus”, sua filosofia a golpes de martelo, quer demolir a idéia de verdade ou o que até agora se chamou de verdade: o cristianismo como “única verdade” para fazer dele “uma das muitas outras interpretações possíveis do mundo”.
Em sua obra A Genealogia da Moral, estuda a origem e a história dos valores morais. Sua conclusão é que não existem as noções absolutas de bem e mal, certo e errado. Os valores morais  surgem da cabeça do homem, a partir de suas próprias avaliações e necessidades, ou seja, o homem é um criador de valores, um animal que avalia. O propósito do pensamento não é a descoberta da “Verdade” como tem sustentado grande parte da filosofia ocidental, mas sim, garantir a sobrevivência no mundo. Nossa espécie evoluiu porque tivemos a necessidade de criar idéias que nos ajudassem a organizar nossas vidas, nossas mentes, e nossa sociedade. Precisamos pensar coisas que não são verdadeiras para dar sentido ao que na verdade é uma realidade caótica.
Nietzsche afirma que precisamos olhar “além do bem e do mal” se quisermos realizar o potencial da vida. Precisamos criar nossos valores e desprezar os sentimentos de ‘rebanho’ – todas aquelas pessoas comuns que gostam de ficar juntas e pensar e agir da mesma maneira. – Como um indivíduo, você deve viver para si próprio, da sua própria maneira. Você deve evitar ser classificado pelos outros, bem como viver de acordo com as expectativas das outras pessoas. Viver para si próprio significa exercer controle sobre as situações e ser bem-sucedido nelas de modo a tornar-se feliz. O que faz você feliz não é determinado pelo que os outros pensam, mas somente por você. Se você obedecer à sua vontade, ficará feliz com suas ações e com sua vida de um modo geral. Você não se arrependerá e ficaria satisfeito em viver a mesma vida outras vezes.
Espírito irrequieto e eruptivo, clamava por liberdade, rompendo grilhões, desfazendo a opressão da moral tradicional, demolindo religiões, vociferando contra a falsidade e a hipocrisia da sociedade, semeando paradoxos, sua vida foi um campo de batalha, no qual o pensamento e a reflexão eram suas armas e seu escudo. Nietzsche valoriza a arte e o indivíduo, toma a vontade como tema central, mas pretende uma ruptura total com a tradição filosófica, na qual vê uma das principais causas da decadência da civilização e da fraqueza do homem. Zomba do racionalismo crítico moderno, de sua pretensão de fundamentar nosso conhecimento e nossas práticas. Nietzsche estava convencido de que o indivíduo é capaz de evoluir para algo melhor do que o que atualmente concebemos como indivíduo. Ele se referiu a esse indivíduo superior como o “Übermensh”, costumeiramente traduzido como “super-homem” ou “além do homem”. Atingir esse "novo homem" acima, muito acima do homem que conhecemos hoje, é a meta dessa estrada rumo ao "tornar-se o que se é".
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 Quem alcança seu ideal, vai além dele
F. Nietzsche (Além do Bem e do Mal - 73)


terça-feira, 31 de maio de 2011

Karl Marx – Modo de Produção e Luta de Classes


Modo de produção é a maneira como se organiza a produção material em um dado estágio de desenvolvimento social. Essa maneira depende do desenvolvimento das forças produtivas (a força do trabalho humano e os meios de produção, tais como máquinas, ferramentas, etc.) e da forma das relações de produção.
Marx define os seguintes modos de produção dominantes em cada época: o comunismo primitivo; o escravismo na Antiguidade; o feudalismo na Idade Média e o capitalismo na Idade Moderna.
A passagem de um modo de produção a outro, segundo o filósofo, dá-se no momento em que o nível de desenvolvimento das forças produtivas entra em contradição com as relações sociais de produção. Quando isso ocorre, há um sufocamento da produção em virtude da inadequação das relações nas quais ela se dá. Nesse momento, surgem as possibilidades objetivas de transformação desse modo de produção.
De acordo com Marx, caberia à classe social que possui, nesse momento, um caráter revolucionário intervir por meio de ações concretas, práticas, para que essas transformações ocorram. Foi o que aconteceu, por exemplo, na passagem do feudalismo ao capitalismo, com as revoluções burguesas.
Marx sintetiza essa análise na afirmação de que a luta de classes é o motor da história, isto é, a luta de classes faz a história se mover.
A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre de corporação e aprendiz; numa palavra, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada; uma guerra que terminou sempre, ou por uma transformação revolucionária da sociedade inteira, ou pela destruição das duas classes em luta[1].
De acordo com Marx, o capitalismo também criou uma classe revolucionária que, em virtude de suas condições de existência, deve se organizar para, no momento oportuno, fazer a revolução social rumo ao socialismo. Essa classe revolucionária seria o proletariado.



[1] Manifesto Comunista, 1848.
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COTRIM, Gilberto & FERNANDES, Mirna. Fundamentos de Filosofia, São Paulo : Saraiva, 2010

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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Karl Marx (1818-1883) - O Materialismo Dialético e Histórico


Marx fez uma crítica radical ao idealismo hegeliano, na qual afirma que Hegel inverte a relação entre o que é determinante – a realidade material – e o que é determinado – as representações e conceitos acerca dessa realidade. A filosofia idealista seria, assim, uma grande mistificação que pretende entender o mundo real, concreto, como manifestação de uma razão absoluta.
Marx procurou compreender a história real dos seres humanos em sociedade a partir das condições materiais nas quais eles vivem. Essa visão da história foi chamada de materialismo histórico. Para Marx não existe o indivíduo formado fora das relações sociais, como o querem Hegel, Feuerbach, Schopenhauer, Kierkegaard e outros tantos. Para ele “A essência humana é o conjunto das relações sociais”, o que significa que a forma como os indivíduos se comportam, agem, sentem, e pensam vincula-se à forma como se dão as relações sociais. Essas relações sociais, por seu lado, são determinadas pela forma de produção da vida material, ou seja, pela maneira como os seres humanos trabalham e produzem os meios necessários para a sustentação material das sociedades.
A forma como os homens produzem esses meios depende em primeiro lugar da natureza, isto é, dos meios de existência já elaborados e que lhes é necessário reproduzir;[1]
Ao falar da produção material da vida, Marx não se refere apenas à produção das inúmeras coisas necessárias à manutenção físicas dos indivíduos, considera o fato de que, ao produzirem todas essas coisas, os seres humanos constroem a si mesmos como indivíduos. Isso ocorre porque, “o modo de produção da vida material condiciona o processo geral de vida social, política e espiritual”[2]. Marx reconhece o trabalho como atividade fundamental do ser humano e analisa os fatores que o tornaram uma atividade massacrante e alienada no capitalismo. Marx pretende expor a lógica do modo de produção capitalista, em que a força de trabalho é transformada em uma mercadoria com dupla face: de um lado, é uma mercadoria como outra qualquer, paga pelo salário; de outro, é a única mercadoria que produz valor, ou seja, que reproduz o capital.
Marx também entende o desenvolvimento histórico-social como decorrente das transformações ocorridas no modo de produção. Nessa análise, ele se vale dos princípios da dialética, mas garante que seu “método dialético não só difere do hegeliano, mas é também sua antítese direta”[3]. Na concepção hegeliana, a dialética torna-se instrumento de legitimação da realidade existente. No pensamento de Marx, a dialética leva ao entendimento da possibilidade de negação dessa realidade “porque apreende cada forma existente no fluxo do movimento, portanto também com seu lado transitório”. Ou seja, a dialética em Marx permite compreender a história em seu movimento, em que cada etapa é vista não como algo estático e definitivo, mas como algo transitório, que pode ser transformado pela ação humana. De acordo com Marx, a história é feita pelos seres humanos, que interferem no processo histórico e podem, dessa forma, transformar a realidade social, sobretudo se alterarem seu modo de produção.



[1] A Ideologia Alemã – introdução
[2] Para Crítica da Economia Política – prefácio
[3] O Capital
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COTRIM, Gilberto & FERNANDES, Mirna. Fundamentos de Filosofia, São Paulo : Saraiva, 2010

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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Ludwing Feuerbach (1804-1872)



Filósofo monotemático, Feuerbach interessou-se pela investigação de um único problema, justificando-se: "A primeira tendência que se fez luz em mim não foi gerada pela ciência, ou pela filosofia, mas pela religião. Acompanhando essa tendência eu fiz da religião o fim e a profissão de minha vida... O meu primeiro pensamento foi Deus, o segundo, a razão, e o último o homem". Na verdade, estava interessado não tanto no problema da existência de Deus, mas no processo de formação da idéia de Deus no pensamento humano, e toda a sua filosofia pode ser resumida na seguinte máxima: não é Deus quem cria o homem, mas o homem quem cria Deus.
Nascido em Landshut, na Baviera, Ludwing Feuerbach estudou teologia na Universidade de Heidelberg. Posteriormente, em Berlim, assistiu às aulas de Hegel, que o impressionou profundamente - "aprendi em um mês com Hegel tudo o que não aprendi antes, em dois", contou ele. A ruptura com o mestre, todavia, deu-se muito cedo e concretizou-se nos Pensamentos sobre a Morte e a Imortalidade, ensaio que, pela tese anticristã desenvolvida, lhe custou a carreira universitária. A fama de ateu determinou a total marginalização do filosofo no ambiente acadêmico; somente em 1848, a convite da liga de estudantes revolucionários de Heildeberg, teve a oportunidade de ministrar um curso universitário, publicado três anos mais tarde (Lições sobre a Essência da Religião). Passou o resto da vida isolado e na miséria.
Obras: Pensamentos sobre a Morte e a Imortalidade (1830)
Crítica da Filosofia Hegeliana (1839)
A Essência do Cristianismo (1841)
A Essência da Religião (1845)
Lições sobre a Essência da Religião (1851).
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Todo homem, pensando em Deus, constrói-se a si mesmo.
Os atributos de Deus são os instrumentos da inteligência humana.
Deus foi criado à imagem e semelhança do homem.

extraído de: NICOLA Ubaldo, Antologia Ilustrada de Filosofia, São Paulo : Globo, 2005.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Arthur Schopenhauer


O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) foi quem atacou com maior veemência o pensamento hegeliano. Apesar de sua grande cultura, só seria reconhecido nos últimos anos de sua vida.

Na obra O Mundo como Vontade e Representação, sustenta que, como o conhecimento é uma relação na qual o objeto é percebido pelo sujeito, o ser humano não conhece as coisas como elas são, mas como podem ser percebidas e interpretadas. Nesse aspecto, faz um retorno a Kant e opõe-se à possibilidade do saber absoluto que Hegel preconizava.

Para Schopenhauer, porém, tudo o que o mundo inclui ou pode incluir é inevitavelmente dependente do sujeito, não existe senão para o sujeito. O mundo é representação. Isso quer dizer que, para ele, não existe uma realidade exterior absoluta e que, para existir o conhecimento do mundo, é preciso existir o sujeito.

Dessa forma, Schopenhauer afasta-se da reflexão de Kant e iniciava a sua própria filosofia. A representação do mundo seria para ele como uma “ilusão”, pois o objeto conhecido é condicionado pelo sujeito. Mas, também diferentemente de Kant, admite ser possível alcançar a essência das coisas por meio do insight intuitivo, uma espécie de iluminação. Nesse processo, a arte teria grande relevância, pois a atividade estética permitiria ao ser humano a compreensão da verdade. Pela arte, o sujeito se desprenderia de sua individualidade para fundir-se no objeto, em uma entrega pura e plena. Nesse ponto, Schopenhauer seria um romântico.

Sua filosofia, de outro ângulo, caracteriza-se por uma visão pessimista do indivíduo e da vida. Para ele, o ser humano seria essencialmente vontade, o que o levaria a desejar sempre mais, resultando em uma insatisfação constante. Essa vontade, que se expressa nas ações humanas, seria parte de uma vontade que anima todas as coisas da natureza. E, se a essência do ser humano e do mundo é essa vontade insaciável, Schopenhauer identifica aí a origem das lutas entre os indivíduos, da dor e do sofrimento.

A história é, para esse filósofo, a história de lutas, em que a infelicidade é a norma. Temos, portanto, a recusa da concepção racionalista de história elaborada por Hegel, segundo a qual ela possui um sentido e progride em direção a uma liberdade maior.

Para Schopenhauer, apenas pela arte e ascese – ou seja, o abandono de si – pode o ser humano libertar-se da dor.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Coisas a serem lembradas sobre o sistema de Hegel:



Coisas a serem lembradas sobre o sistema de Hegel:

* é um sistema em movimento;

* A contradição (a dialética) é o motor;

* O sistema é abrangente;

* A aparência das coisas (em repouso) é diferente de sua realidade (em movimento);

* a história toda é o exercício do Espírito através do tempo. Isto é a marcha da razão

* Lógica = Metafísica.



Para Hegel, a mente constrói a realidade. Mas, em princípio, não sabe disso. Acha que a realidade está fora, independente dela. Assim, ela está alheia a si mesma. Então vê que a realidade é criação sua. Aí conhece a realidade tão claramente quanto se conhece. A realidade e ela são uma coisa só.

Hegel foi o mais importante filósofo do inicio do século XIX a construir sistemas amplos, abrangentes e complexos pretendendo revelar os segredos do homem, da natureza e do universo. O idealismo hegeliano dominou a Alemanha e grande parte do pensamento europeu nesta “era do sistema”. Estranhamente, Hegel e seus seguidores não associaram seus imponentes sistemas às complexas transformações científicas e sociais da época em que viveram.

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OSBORNE, R. "Filosofia para Principiantes", Rio de Janeiro: Objetiva, 1998.

A Dialética Hegeliana


Eis como funciona o sistema:

Começamos com uma tese (uma posição posta em discussão). Em oposição à tese, há uma afirmação contraditória ou antítese. Da oposição entre tese e antítese, nasce uma síntese que abrange ambas. Mas como a verdade só se encontra na totalidade do sistema, essa primeira síntese ainda não é a verdade da questão, mas passa a ser uma nova tese, com uma antítese e uma síntese correspondentes. O processo continua ad infinitum até chegarmos à idéia absoluta.

Hegel afirma que este processo é a base de toda história, e da história do pensamento. Filósofos anteriores são parte do processo dialético em desenvolvimento que leva ao conhecimento e à lucidez, e ao clímax da filosofia que aparentemente é o próprio sistema hegeliano .

O sistema começa com “ser indeterminado puro” e termina com a Idéia Absoluta ou a própria Verdade. Essa Idéia Absoluta é como o “pensamento se pensando”, ou o Deus do filósofo de Aristóteles, o Motor Imóvel.

Hegel diz que este processo de contradição e desenvolvimento é inerente à realidade histórica e ao pensamento, e que o exercício dessas contradições necessariamente conduz a estágios mais elevados.

Isto deve lhe dar uma idéia de como funciona o sistema. Como as coisas se relacionam, se são inevitáveis ou fazem sentido – é outra história.

Hegel disse que a natureza representava a idéia “fora de si”. Idéia lógica, natureza e & espírito, obviamente, têm uma ligação.

Tese

Antítese

Síntese

Idéia Lógica

Natureza

Espírito

Realidade subjacente

Aspecto exterior e não-racional da mesma realidade

Unidade da idéia e natureza







Hegel examina o que considera a esfera mais elevada – o trabalho do Espírito através da história. A dialética é assim:

Tese

Antítese

Síntese

Espírito subjetivo

Espírito Objetivo

Espírito Absoluto

Este espírito (ou sujeito, ou razão, ou mente), que é objetivo e Absoluto, governa o mundo. O Espírito Absoluto ou Idéia Absoluta desenvolve-se através dos tempos e revela-se de modo absoluto a Hegel.

Espírito subjetivo

Espírito objetivo

Espírito absoluto

Funcionamento interno da mente humana

A mente em sua encarnação externa nas instituições sociais & políticas

Arte, Religião, Filosofia

Hegel da muitos exemplos para mostrar que o Absoluto é Espírito. De modo mais interessante, afirma que esse espírito se manifesta nos indivíduos, nas instituições sociais como a família & o estado, e na arte, na religião e na filosofia de uma época.

Esta idéia do Espírito Objetivo como a encarnação externa da mente foi adotada por outros filósofos. O conceito de zeitgeist (literalmente, Espírito do Tempo) – as inter-relações entre indivíduos, sociedade, arte, religião de uma determinada éoca – é fundamental na história moderna. A importância de se entender o todo, o sistema como um todo, ajudou nitidamente a dar forma ao marxismo e a muita coisa depois.

Hegel via então a história como “a marcha da razão no mundo” e as instituições humanas como o produto do devir dialético.

Hegel e o Espírito Absoluto


Hegel foi o maior dos idealistas alemães, certamente o mais difícil de entender e possivelmente o mais escandaloso em suas pretensões de ter entendido toda a história da filosofia. Foi professor universitário e catedrático de filosofia durante quase toda a vida e, como Kant, quase mais nada fez.

No inicio, Hegel era um tanto místico, e alguns críticos sugerem que ele jamais superou esta característica. De seus muitos escritos os mais importantes são: A Fenomenologia do Espírito, A Ciência da Lógica e A Filosofia do Direito.

Os dois primeiros talvez possam ser considerados os mais obscuros de toda a filosofia, e foram, portanto, os que mais produziram interpretações.

Hegel pode ser descrito como um monista, alguém que crê na totalidade única, o ESPÍRITO ABSOLUTO.

Hegel começou rejeitando a coisa em si de Kant e o mundo noumênico. Hegel afirmava que a tese de Kant de que algo que existia (a coisa em si) era incognoscível, era uma contradição flagrante, que violava as próprias leis de Kant sobre os limites do conhecimento.

Os idealistas e Hegel manifestaram a visão oposta de que tudo o que é, é cognoscível. Na famosa máxima de Hegel:

“O REAL É RACIONAL E O RACIONAL É REAL.”

Fundamental no pensamento de Hegel é a noção de que tudo está interligado. Enquanto a maioria dos filósofos a partir de Aristóteles defendia que a realidade tinha de ser separada em pares distintas – quer como fatos, objetos ou mônadas – Hegel dizia que nada era desconexo.

Para Hegel, a realidade última era a idéia absoluta – “a verdade é o todo”. Ele equiparava Verdade a Sistema. A peça individual só tem significado quando vista como parte do quebra-cabeça.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Além do Bem e do Mal - 11 (Nietzsche)


Parece-me que hoje todos se esforçam para minimizar a influência real que Kant exerceu na filosofia alemã e sobretudo insinuar prudentemente o valor que ele próprio se atribuía. Kant se orgulhava, antes de tudo, de sua tabela de categorias. Com essa tabela na mão dizia: "Isso é a coisa mais difícil que já pôde ser realizada em prol da metafísica". Compreenda-se bem esse "pôde ser"! Ele se sentia orgulhoso por ter descoberto no homem uma nova faculdade, a faculdade do juízo sintético a priori. Bem que cometeu um erro nesse ponto, pois o desenvolvimento e o rápido florescimento da filosofia alemã não deixam de ter menos participação nesse orgulho e no zelo que incitou a todos os jovens pensadores a descobrir, se possível, alguma coisa que os orgulhasse mais ainda - a descobrir, em todo caso, "novas faculdades". Mas reflitamos um pouco, posto que ainda temos tempo! De que modo são possíveis os juízos sintéticos a priori? se perguntava Kant. E que respondia? Por meio de uma faculdade. mas infelizmente não com essas poucas palavras, e sim de modo tão cerimonioso, tão venerável, com tal esbanjamento de profundidade e filigranas alemãs, a ponto de esquecer a alegre tolice alemã que se oculta no fundo de semelhante resposta. Melhor ainda, todos se sentiram tomados de alegria diante dessa descoberta de uma nova faculdade e o entusiasmo chegou ao cúmulo quando Kant acrescentou uma nova descoberta, uma faculdade moral no homem - pois naquele tempo os alemães ainda eram morais e ignoravam o realismo político. Essa foi a lua-de-mel da filosofia alemã. Todos os jovens teólogos do seminário de Tübingen se dedicaram a pesquisar para descobrir novas "faculdades". E o que foi que não se descobriu, durante esse período ainda tão juvenil da filosofia alemã, esse período inocente e rico, em que o romantismo, gênio maldoso, tocava e entoava sortilégios, quando não se sabia ainda distinguir entre "descobrir" e "inventar"! Descobriram principalmente uma faculdade para as coisa "supra-sensíveis". Schelling a denominou intuição intelectual, satisfazendo assim aos mais fervorosos desejos dos alemães, repletos de aspirações piedosas. A pior injustiça que se pode cometer contra esse impetuoso e entusiasta movimento que era só juventude, embora se disfarçasse audaciosamente com um manto de idéias cinzentas e senis, seria tê-lo levado a sério, tratá-lo realmente com indignação moral. Em resumo, tornaram-se mais velhos - e o sonho se desvaneceu. Chegou o momento em que passaram a esfregar os olhos. Antes de todos e em primeiro lugar, o velho Kant. "Por meio de uma faculdade", havia dito, mas queria dizer pelo menos. Mas isso é uma resposta? Uma explicação? Ou melhor, não é a simples repetição da pergunta? Por que o ópio faz dormir? "Por meio de uma faculdade", pela virtus dormitiva - respondia o médico de Molière:

"Quia est in eo virtus dormitiva
cujus est natura sensus assoupire"
[porque há nele uma faculdade dormitiva,
cuja natureza é entorpecer os sentidos]

Mas semelhantes respostas são convenientes para a comédia e finalmente chegou o tempo de substituir a pergunta de Kant: "Como são possíveis juízos sintéticos a priori?", por uma outra pergunta: "Por que é necessária a crença em tais juízos?" - isto é, de compreender que, para o fim da conservação de seres como nós, é preciso acreditar que tais juízos são verdadeiros; com o que, naturalmente, eles também poderiam ser falsos! Ou, dito de maneira clara e crua: juízos sintéticos a priori não deveriam absolutamente "ser possíveis": não temos direitos a eles, em nossa boca são somente juízos falsos. Mas é claro que temos que crer em sua verdade, uma crença de fachada e evidência que pertence à ótica-de-perspectivas da vida. - Por fim, considerando ainda a enorme influência que a "filosofia alemã" - espero que se entenda o seu direito às aspas - tem exercido na Europa, não se duvide que uma certa virtus dormitiva teve participação nisso: nobres ociosos, virtuosos, místicos, artistas, cristãos três-quartos e obscurantistas políticos de todas as nações estavam encantados possuir, graças à filosofia alemã, um antídoto para o sensualismo ainda predominante que do século anterior transbordou para este; em suma - "sensus assoupire"...

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Immanuel Kant


Kant nasceu, estudou, lecionou e morreu em Koenigsberg. Sua vida foi austera e regular como um relógio. Sofreu influências do pietismo, protestantismo luterano de tendência mística e pessimista e do Racionalismo de Leibniz. Mas, foi D. Hume que o fez acordar do seu sono dogmático. Em 1781 publica a Crítica da Razão Pura, sua obra maior, onde distingue o conhecimento sensível (que abrange as intuições sensíveis) e o conhecimento inteligível (que trata das idéias metafísicas). Neste livro explica essencialmente porque as metafísicas são voltadas ao fracasso e porque a razão humana é impotente para conhecer o fundo das coisas. Neste livro Kant tenta responder três questões fundamentais da filosofia: Que podemos saber? Que devemos fazer? Que nos é lícito esperar?

Kant tentou nos mostrar que, embora não possamos confiar em nossos sentidos para receber diretamente informações sobre a realidade, eles nos informam como a realidade aparece para nós. E a aparência da realidade não é apenas obra de hipóteses, como Hume afirmou, ela aponta além da experiência para a unidade transcendente entre a aparência do mundo e o que ele realmente é. Kant distinguiu entre o que o mundo realmente é e sua aparência. A aparência das coisas ele chamou de fenômeno. O mundo real ele denominou noúmeno ou a coisa-em-si. Afirmou que, embora não possamos conhecer o noúmeno diretamente, podemos apreendê-lo baseados na maneira como percebemos o mundo como fenômeno. Ou seja, Kant diz que jamais podemos experimentar a coisa-em-si diretamente. Tudo o que podemos conhecer diretamente são os fenômenos, que é aquilo que se apresenta ao nosso entendimento. Kant denominou “Categorias do Entendimento” os conceitos que organizam a realidade permitindo-nos compreender a experiência. Esses conceitos são: espaço, tempo, substancia e causalidade. Kant denominou esses conceitos de a priori. Conceitos a priori, vêm antes da experiência; eles tornam a experiência possível. Ou seja, não são conceitos que as pessoas formularam; eles existiam antes de nossa existência, antes de sequer pensarmos neles. Mas eles são necessários para que possamos compreender as coisas.

Com a Crítica da Razão Pura, Kant pretende um estudo sobre os limites do conhecimento. Seu método é a crítica, isto é, a analise reflexiva, onde a razão critica a si mesma, o que consiste em remontar às condições que tornam o conhecimento legítimo. Kant fez uma analogia entre sua abordagem da relação entre experiência e entendimento e a explicação de Copérnico sobre a relação entre a Terra e o Sol. Assim invertendo a atitude empírica em relação ao conhecimento, Kant, em vez de dizer que o conhecimento deve se conformar aos objetos, ele disse que os objetos devem se conformar ao conhecimento. Ou seja, os objetos são organizados pela mente; e como a mente organiza a realidade, permite-nos compreender a experiência.

Partindo da distinção de Hume entre idéias sobre o que existe e idéias sobre o que deveria ser, Kant propõe a visão de que existem categorias objetivas do pensamento moral. Ele se referiu ao pensamento moral como Razão Prática, o raciocínio sobre como deveríamos agir. Ele opôs a “razão prática” à “razão pura”, o raciocínio sobre o que existe. Em seu estudo da razão prática, Kant sustentou que podemos ter idéias universalmente válidas sobre o que deveríamos fazer, denominadas “imperativos”.

Kant descreveu o “imperativo categórico”, que possibilita o julgamento prático, assim como as categorias de substância, qualidade, etc. possibilitam o entendimento. O imperativo categórico, disse ele, é um “conceito a priori”. Podemos ver que é verdadeiro antes da experiência. Kant descreveu o imperativo categórico como uma lei moral universal. O imperativo categórico é uma lei moral que é válida para todo mundo e forma a base de nossa razão prática, ou entendimento moral. Não apenas se refere a como devemos agir, mas permite que nos comportemos como seres morais. Podemos dizer que nossas ações estão de acordo com essa lei se forem corretas e morais pra todos.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

David Hume (1711-1776) e o Entendimento Humano

Nascido a 7 de maio de 1711 na Escócia, David Hume foi um filósofo empirista quanto ao problema da origem do conhecimento, cético em relação à metafísica e utilitário altruísta em assuntos morais e políticos. Concebeu a filosofia como ciência indutiva da natureza humana e chegou à conclusão de que o homem é muito mais prático e sensitivo do que racional. Ele queria desenvolver uma ciência da mente e da natureza humana tão coerente e confiável como a física praticada por Newton e seus contemporâneos.
Baseado em analogias observadas entre os processos físicos e mentais, ele propõe uma nova visão de como as impressões sensoriais se reúnem para formar idéias.
As impressões sensoriais, afirma Hume, reúnem-se em nossas mentes se forem semelhantes umas às outras ou se as experimentarmos conjuntamente. Em outras palavras, elas se reúnem em nossas mentes por associações. Esse associacionismo de Hume baseia-se em uma visão empírica do entendimento, mas ao mesmo tempo nos afasta co conhecimento empírico: Aquilo que conhecemos é formado com base em semelhanças e coincidências, e essas relações não são tão confiáveis quanto às leis científicas formuladas por Newton.
Parte do problema, disse Hume, deve-se à diferença entre fatos e razão. Fatos são apenas fatos. Você não pode usá-los para dizer algo seguro sobre outros fatos. Além disso, eles não são logicamente necessários. Não temos como saber se o que existe tem de existir ou se algo diferente poderia ter existido com a mesma facilidade.
Por outro lado, existem conexões lógicas que podemos estabelecer entre idéias. Mesmo assim, essas conexões informam apenas sobre as relações, não sobre os fatos. Isso significa que fatos e relações lógicas estão separados como as pontas de uma forquilha. Podemos associá-los em nossas mentes, mas são coisas diferentes. Fatos acidentais e relações lógicas não podem se unir para informar ao certo o que é a realidade. Tudoo que podemos fazer é levantar hipóteses.
Hume afirmou que tendemos a acreditar que as coisas têm causas, mas não é possível saber quais coisas em particular causam outras. Porque formamos crenças sobre causas baseadas em associações que fizemos. Essas associações não nos informam como as coisas realmente acontecem. Pelo contrário, elas refletem a maneira como nossos instintos naturais, hábitos e convenções sociais formaram nossa crença sobre o mundo.
Hume afirmou que a experiência, embora seja a nossa única fonte de conhecimento, não pode nos informar muita coisa sobre a realidade. Assim, a maioria das crenças baseia-se no hábito, na convenção e na natureza humana. De forma semelhante, as ações das pessoas em si não são boas ou más, mas produzem juízos de valor dentro de nós. Todas as ações são apenas fatos, e esse fato faz as pessoas julgarem o fato como bom ou mal. Essa tendência a julgar faz parte da natureza humana. Está dentro de nós e não no evento ao qual reagimos. Assim, nossas ações, e em grande parte, nossas crenças são determinadas mais pelo desejo que pela razão.
Nas palavras de Hume: “A beleza das coisas existe nas mentes que as contemplam.”
David Hume morre em 25 de agosto de 1776.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A Filosofia Moderna II - Sobre o Sr. Locke


Talvez nunca tenha existido um espírito mais sensato, mais metódico, um lógico mais exato que o senhor Locke. Antes dele, grandes filósofos haviam decidido positivamente o que é a alma do homem, mas como nada sabiam sobre ela, era muito justo que todos eles tivessem opiniões diferentes. (...) Locke desenvolveu a razão humana para o homem, como um excelente anatomista explica as molas do corpo humano. Apóia-se em tudo na tocha da física; algumas vezes ousa falar afirmativamente, mas também ousa duvidar; em vez de definir de repente aquilo que não conhecemos, examina por graus aquilo que queremos conhecer. Toma uma criança no momento de seu nascimento, segue passo a passo os progressos de seu entendimento, vê o que tem em comum com os animais e o que possui acima deles, consulta particularmente seu próprio testemunho, a consciência de seu pensamento.
(...) Nosso Descartes, nascido para descobrir os erros da Antiguidade, mas para substituí-los pelos seus próprios e impelido por esse espírito sistemático que cega os maiores homens, imaginou ter demonstrado que a alma era a mesma coisa que o pensamento, como a matéria, segundo ele, é a mesma coisa que a extensão. Assegurou que se pensa sempre e que a alma vem ao corpo já provida de todas as noções metafísicas, conhecendo Deus, o espaço, o infinito, tendo todas as idéias abstratas, repleta enfim de belos conhecimentos que infelizmente esquece ao sair do ventre de sua mãe. (...) Locke diz: “deixo discutir aqueles que sabem mais do que eu se nossa alma existe antes ou depois da organização de nosso corpo; mas confesso que, na partilha, coube-me uma dessas almas grosseiras que não pensam sempre e tenho até mesmo a infelicidade de não conceber que seja mais necessário à alma pensar sempre do que ao corpo estar sempre em movimento.”
Locke, após ter arruinado as idéias inatas, após ter renunciado à vaidade de crer que se pensa sempre, estabelece que todas as nossas idéias nos vêm pelos sentidos, examina nossas idéias simples e as compostas, segue o espírito do homem em todas as suas operações,mostra como as línguas faladas são imperfeitas e como abusamos dos termos a todo momento.
Finalmente passa a considerar a extensão, ou melhor, o nada dos conhecimentos humanos. É nesse capítulo que ousa proferir modestamente as seguintes palavras: “Talvez nunca sejamos capazes de conhecer se um ser puramente material pensa ou não”(...) “Confessem pelo menos que vocês são tão ignorantes como eu, que sua imaginação nem a minha podem conceber como um corpo tem idéias; e vocês não compreendem melhor como uma substância, seja qual for, tem idéias? Não concebem a matéria nem o espírito; como ousam assegurar alguma coisa?”

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VOLTAIRE, Cartas Filosóficas, 13a carta - sobre o Sr. Locke.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

[repostagem] Eu - Deus - O mundo



Descartes se propõe a encontrar uma certeza básica, imune às dúvidas e que possa servir de base e fundamento, de ponto de partida para o processo de conhecimento, pois a racionalidade pertence à natureza humana, portanto, o homem trás dentro de si a possibilidade do conhecimento. Resta apenas encontrar um fundamento seguro para a construção do “edifício do conhecimento”.Assim assume inicialmente o ceticismo, levando-o a suas últimas conseqüências para refutá-lo. Aconselha a esvaziarmo-nos de todos os nossos conhecimentos e crenças, já que entre eles existem alguns que não são confiáveis e como não sabemos quais, examinemos todos. Nega todo conhecimento que nos chegam pelos sentidos, pois estes sempre nos enganam. Ao colocar tudo em dúvida, a única coisa que não é possível de duvidar é que se eu duvido, eu penso; o pensamento é imune à dúvida e, portanto, se eu penso, eu existo, essa é a primeira certeza da qual não podemos duvidar - a existência do pensamento. “Penso, logo existo”.Descartes acredita na existência de idéias inatas, ou seja, idéias que já nascemos com elas e que permitem um conhecimento seguro das coisas. A segunda verdade evidente para Descartes é a existência de Deus, que garante a veracidade do mundo e tudo o que nele existe, sendo a existência do mundo a terceira verdade incontestável. Deus é uma verdade incontestável porque possuimos a idéia de infinito e perfeição mesmo sendo imperfeitos e finitos, sendo assim, somente Deus que é infinito e perfeito pode ter colocado essas idéias em nós. Assegurada a existência de Deus, um Deus perfeito e infinito não iria nos enganar sobre sua criação e somente assim podemos crer na existência do mundo e tudo o que nele existe. Da existência do sujeito pensante podemos deduzir Deus como uma verdade inabalável e de Deus podemos reconhecer a veracidade de todo o mundo por que este mundo é Sua obra.

[repostagem] Francis Bacon (1561-1626)


Considerado juntamente com Descartes, um dos iniciadores do pensamento moderno teve uma grande influência defendendo uma concepção de método científico que valoriza a experiência e a experimentação. A preocupação fundamental de Bacon é com a formulação de um método que evite o erro e coloque o homem no caminho do conhecimento correto.Suas grandes contribuições à filosofia foram, sua concepção de pensamento crítico, transformando a tarefa da filosofia em libertar o homem dos preconceitos, ilusões e superstições que bloqueiam a mente humana e impedem o verdadeiro conhecimento; e a defesa de um método indutivo no conhecimento científico e de um modelo de ciência antiespeculativo e integrado com a técnica. Este novo método, baseado nas observações, permite o conhecimento do funcionamento da natureza e, observando a regularidade entre os fenômenos e estabelecendo relações entre eles, permite formular leis científicas que são generalizações indutivas. Desse modo a ciência pode progredir, e o conhecimento crescer de forma controlada e segura.“Saber é Poder”, diz Bacon, ao conhecer as leis que explicam o funcionamento da natureza, podemos fazer previsões e tentar controlá-los de modo que nos seja proveitoso. Os instrumentos técnicos, por sua vez, são extensões de nossos membros e faculdades que permitem o desenvolvimento da ciência aplicada e nos ajudam a superar nossas limitações.