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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A filosofia e as crianças


(...) Que a consciência e a virtude brilhem em suas palavras e que só a razão tenha por guia. Ensinar-lhe-ão a compreender que CONFESSAR O ERRO que descobriu em seu raciocínio, mesmo que ninguém o tenha percebido, é prova de DISCERNIMENTO E SINCERIDADE, qualidades principais a que se deve aspirar. TEIMAR E CONTESTAR OBSTINADAMENTE são DEFEITOS peculiares às almas vulgares, ao passo que voltar atrás, corrigir-se, abandonar sua opinião errada no ardor da discussão, são qualidades raras, das almas fortes e dos espíritos filosóficos. (...)

Posto que a filosofia é a ciência que nos ensina a viver e que a infância como as outras idades dela podem tirar ensinamentos, por que motivo não lha comunicaremos? (...)

Por moço que seja, que ninguém se recuse a praticar a filosofia, e que os velhos não se cansem dela.
MONTAIGNE, Michel de. "Ensaios", Livro I, cap.XXVI.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Provérbios do Inferno - Wilham Blake


No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.

Conduz teu carro e teu arado por sobre os ossos dos mortos.

A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria.

A Prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência.

Quem deseja, mas não age, gera a pestilência.

O verme partido perdoa ao arado.

Mergulha no rio quem gosta de água.

O tolo não vê a mesma árvore que o sábio.

Aquele, cujo rosto não se ilumina, jamais há de ser uma estrela.

A Eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo.

A abelha atarefada não tem tempo para tristezas.

As horas de loucura são medidas pelo relógio; mas nenhum relógio mede as de sabedoria.

Os alimentos sadios não são apanhados com armadilhas ou redes.

Toma do número, do peso e da medida em ano de escassez.

Nenhum pássaro se eleva muito, se se eleva com as próprias asas.

Um cadáver não vinga as injúrias.

O ato mais sublime é colocar outro diante de ti.

Se o louco persistisse em sua loucura, acabaria se tornando Sábio.

A loucura é o manto da velhacaria.

O manto do orgulho é a vergonha.

As Prisões se constroem com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião.

O orgulho do pavão é a glória de Deus.

A luxúria do bode é a glória de Deus.

A fúria do leão é a sabedoria de Deus.

A nudez da mulher é a obra de Deus.

O excesso de tristeza ri; o excesso de alegria chora.

A raposa condena a armadilha, não a si própria.

Os júbilos fecundam. As tristezas geram.

Que o homem use a pele do leão; a mulher a lã da ovelha.

O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia; o homem, a amizade.

O sorridente tolo egoísta e o melancólico tolo carrancudo serão ambos julgados sábios para que sejam exemplo.

O que hoje se prova, outrora era apenas imaginado.

A ratazana, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes; o leão, o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos.

A cisterna contém; a fonte derrama.

Um só pensamento preenche a imensidão.

Dizei sempre o que pensa, e o homem torpe te evitará.

Tudo o que se pode acreditar já é uma imagem da verdade.

A águia nunca perdeu tanto o seu tempo como quando resolveu aprender com a gralha.

A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão.

De manhã, pensa; ao meio-dia, age; no entardecer, come; de noite, dorme.

Quem permitiu que dele te aproveitasses, esse te conhece.

Assim como o arado vai atrás de palavras, assim Deus recompensa orações.

Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.

Da água estagnada espera veneno.

Nunca se sabe o que é suficiente até que se saiba o que é mais que suficiente.

Ouve a reprovação do tolo! É um elogio soberano!

Os olhos, de fogo; as narinas, de ar; a boca, de água; a barba, de terra.

O fraco na coragem é forte na esperteza.

A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão, ao cavalo, como apanhar sua presa.
Ao receber, o solo grato produz abundante colheita.

Se os outros não fossem tolos, nós teríamos que ser.

A essência do doce prazer jamais pode ser maculada.

Ao veres uma Águia, vês uma parcela da Genialidade. Levanta a cabeça!

Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para deitar seus ovos, assim o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.

Criar uma florzinha é o labor de séculos.

A maldição aperta. A benção afrouxa.

O melhor vinho é o mais velho; a melhor água, a mais nova.

Orações não aram! Louvores não colhem! Júbilos não riem! Tristezas não choram!

A cabeça, o Sublime; o coração, o Sentimento; os genitais, a Beleza; as mãos e os pés, a Proporção.

Como o ar para o pássaro ou o mar para o peixe, assim é o desprezo para o desprezível.

A gralha gostaria que tudo fosse preto; a coruja, que tudo fosse branco.

A Exuberância é a Beleza.

Se o leão fosse aconselhado pela raposa, seria ardiloso.

O Progresso constrói estradas retas; mas as estradas tortuosas, sem o Progresso, são estradas da Genialidade.

Melhor matar uma criança no berço do que acalentar desejos insatisfeitos.

Onde o homem não está a natureza é estéril.

A verdade nunca pode ser dita de modo a ser compreendida sem ser acreditada.

É suficiente! Ou Basta.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Oração para o ano que se encerra e outro que se inicia


mãe nossa, que estais na terra (nossa própria terra), pai nosso, qualquer coisa nossa, livrai-me:

dos que não podem ficar à toa ao meu lado, dos que não podem amar sem recompensas, dos que não sabem ouvir a música poluída de todo esse barro e dos que sempre preferem chamar a polícia. livrai-me dos que não despregam o olho da cruz. livrai-me, deusas, deuses, forças abissais, abismadas, absurdas, qualquer coisa potente aqui e assim chamada, livrai-me de todos os escritores que trabalham a palavra e não brincam com ela . livrai-me dos alpinistas sociais travestidos de artista. livrai-me dos que não erram, dos que não dão ponto sem nó, dos que não acreditam no impossível e podem (sempre) comprar o possível. livrai-me dos que desconhecem o fracasso, dos que não deixam o menino deus brincar e não interrompem a palavra do pai. livrai- me dos que não abrem as janelas e não se deixam possuir pela ventania. livrai-me dos que nunca perdem o bonde e de nada podem esquecer . livrai-me dos vampiros que não acreditam nos anjos e dos anjos que não enxergam no escuro. livrai-me dos que não sonham acordados e não atravessam a alegria ferida no corpo. livrai-me deus (é natal). livrai-me de mim mesmo. de minhas estúpidas retóricas. de minhas neuroses familiares. livrai-me com forças, deuses e deusas, para que eu possa sumir daqui com nossos rizomas de boutique, com os especialismos de nossas falações terminais pela noite e com nossa verborragia muda. livrai-me do homo lattes que em mim range e habita (homo lattes: sub-espécie do homo sapiens. homo fordista da sabedoria estudada dos idiotas diplomados). livrai-me, deuses, de todos os artistas fascistas da esquerda, da direita, dos centros maliciosos da sabedoria. livrai-me com forças para que eu possa atravessar as chefias dos departamentos mofados da grande fofoca, das teorias conspiratórias, dos segredos de damas enfeitadas de arte, das verborragias de dança, das lombrigas cheias de razão e dos torpedos manufaturados em ambulâncias tristes que cantam bem à noitinha no escuro urbano do corpo.

rezo aos deuses e deusas, a todos os deuses dessa terra misteriosa, para que me dêem memória fresca, vibrações uterinas que inaugurem novas paternidades de fogo, novas ventanias, criações do sempre e do frágil (o frágil que é forte porque se abre à vida): tempestade invisível saudando os tambores do corpo, revelando o espírito imundo que irá nos salvar do medo adulto de perder empregos, perder baladas, perder os medos famigerados de vida. rezo aos deuses, a todos os deuses e deusas, para que o palco e a platéia se explodam, para que a poesia não precise mais da arrogância dos poetas e nem da devoção dos mortais, para que a vida seja mais viva entre nós e para que os deuses se criem sozinhos.

André Monteiro.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Heráclito de Éfeso


Este mundo, o mesmo de todos os seres, nenhum deus, nenhum homem o fez, mas era, é e será um fogo sempre vivo, acendendo-se em medidas e apagando-se em medidas.


Purificam-se manchando-se com outro sangue, como se alguém, entrando na lama, em lama se lavasse. e louco pareceria, se algum homem o notasse agindo assim. E também a estas estátuas eles dirigem suas preces, como alguém que falasse a casa, de nada sabendo o que são deuses e heróis.


Mar, água mais pura e mais impura, para os peixes potável e saudável, para os homens impotável e mortal.


Para os deuses são belas todas as coisas e boas e justas, mas homens tomam umas como injustas e outras como justas.


A Natureza ama se esconder.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

David Hume (1711-1776)





A avareza ou o desejo de ganho é uma paixão universal que age em todos os tempos e lugares e sobre todas as pessoas: mas a curiosidade ou o amor do conhecimento tem influência limitada e requer juventude, ócio, educação, genio e exemplo para apoderar-se duma pessoa.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Humano, demasiado humano - 283


... Todos os homens se dividem, em todos os tempos e também hoje, em escravos e livres; pois aquele que não tem dois terços do dia para si é escravo, não importa o que seja: estadista, comerciante, funcionário ou erudito.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Francis Bacon (1561-1626)


Considerado juntamente com Descartes, um dos iniciadores do pensamento moderno teve uma grande influência defendendo uma concepção de método científico que valoriza a experiência e a experimentação. A preocupação fundamental de Bacon é com a formulação de um método que evite o erro e coloque o homem no caminho do conhecimento correto.
Suas grandes contribuições à filosofia foram, sua concepção de pensamento crítico, transformando a tarefa da filosofia em libertar o homem dos preconceitos, ilusões e superstições que bloqueiam a mente humana e impedem o verdadeiro conhecimento; e a defesa de um método indutivo no conhecimento científico e de um modelo de ciência antiespeculativo e integrado com a técnica. Este novo método, baseado nas observações, permite o conhecimento do funcionamento da natureza e, observando a regularidade entre os fenômenos e estabelecendo relações entre eles, permite formular leis científicas que são generalizações indutivas. Desse modo a ciência pode progredir, e o conhecimento crescer de forma controlada e segura.
“Saber é Poder”, diz Bacon, ao conhecer as leis que explicam o funcionamento da natureza, podemos fazer previsões e tentar controlá-los de modo que nos seja proveitoso. Os instrumentos técnicos, por sua vez, são extensões de nossos membros e faculdades que permitem o desenvolvimento da ciência aplicada e nos ajudam a superar nossas limitações.

domingo, 6 de julho de 2008

Eu - Deus - O mundo


Descartes se propõe a encontrar uma certeza básica, imune às dúvidas e que possa servir de base e fundamento, de ponto de partida para o processo de conhecimento, pois a racionalidade pertence à natureza humana, portanto, o homem trás dentro de si a possibilidade do conhecimento. Resta apenas encontrar um fundamento seguro para a construção do “edifício do conhecimento”.
Assim assume inicialmente o ceticismo, levando-o a suas últimas conseqüências para refutá-lo. Aconselha a esvaziarmo-nos de todos os nossos conhecimentos e crenças, já que entre eles existem alguns que não são confiáveis e como não sabemos quais, examinemos todos. Nega todo conhecimento que nos chegam pelos sentidos, pois estes sempre nos enganam. Ao colocar tudo em dúvida, a única coisa que não é possível de duvidar é que se eu duvido, eu penso; o pensamento é imune à dúvida e, portanto, se eu penso, eu existo, essa é a primeira certeza da qual não podemos duvidar - a existência do pensamento. “Penso, logo existo”.
Descartes acredita na existência de idéias inatas, ou seja, idéias que já nascemos com elas e que permitem um conhecimento seguro das coisas. A segunda verdade evidente para Descartes é a existência de Deus, que garante a veracidade do mundo e tudo o que nele existe, sendo a existência do mundo a terceira verdade incontestável. Deus é uma verdade incontestável porque possuimos a idéia de infinito e perfeição mesmo sendo imperfeitos e finitos, sendo assim, somente Deus que é infinito e perfeito pode ter colocado essas idéias em nós. Assegurada a existência de Deus, um Deus perfeito e infinito não iria nos enganar sobre sua criação e somente assim podemos crer na existência do mundo e tudo o que nele existe. Da existência do sujeito pensante podemos deduzir Deus como uma verdade inabalável e de Deus podemos reconhecer a veracidade de todo o mundo por que este mundo é Sua obra.

sábado, 21 de junho de 2008

Zaratustra e o Santo


Disse Zaratustra ao santo:

- Amo os homens. Por que fui falar de amor! Trago aos homens um presente.

- Não lhes dês nada - disse o santo - tira-lhes, de preferência, alguma coisa e ajuda-os a levá-la; será o que de melhor poderás fazer por eles, se for bom para ti. E, se queres dar-lhes alguma coisa, que não seja mais que uma esmola; e, mesmo assim, só depois que a mendiguem.

- Não - respondeu Zaratustra - eu não dou esmolas. Não sou bastante pobre para isso.

O santo pôs-se a rir de Zaratustra e falou assim: - Trata, então, de que aceitem os teus tesouros! Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que os procuremos para presenteá-los.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Pobre.


Hoje ele é pobre; mas não porque lhe tiraram tudo, e sim porque jogou tudo fora - que lhe importa isso? Ele está habituado a encontrar. - pobres são aqueles que não entendem a pobreza voluntária dele.


(A Gaia Ciência - 185)

domingo, 18 de maio de 2008


A presença de um pensamento é como a presença de quem se ama. Achamos que nunca esqueceremos esse pensamento e que nunca seremos indiferentes à nossa amada Só que longe dos olhos, longe do coração! O mais belo pensamento corre o perigo de ser irremediavelmente esquecido quando não é escrito, assim como a amada pode nos abandonar se não nos casamos com ela.

domingo, 11 de maio de 2008

sobre Idéias e o Pensar


Todo o homem, vá ele para onde for, leva consigo uma nuvem de confortáveis convicções, que o acompanham como moscas num dia de Verão.
Bertrand Russel, 1872-1970, filósofo e matemático inglês, Marriage and Morals


A maneira como conhecemos e interpretamos o mundo depende basicamente das ideias que enchem a nossa mente.
E. F. Schumacher, 1911-1977, economista e ecologista alemão, Small is Beautiful


Pensar é antes de tudo criar um mundo.
Albert Camus, 1913-1960, escritor e filósofo francês, O Mito de Sísifo


Sem ideias, não podemos viver a um nível humano. Aquilo que fazemos depende delas.
Ortega y Gasset, 1883-1955, escritor e filósofo espanhol, En Torno a Galileu


O que somos hoje é uma consequência do nosso pensamento de ontem, e o nosso pensamento presente constrói a nossa vida de amanhã: a nossa vida é uma criação do nosso espírito.
Pali Tripitaka, Souttapitaka, colecção budista de textos sagrados

segunda-feira, 14 de abril de 2008

A Arte

A arte arrebata o objeto de sua contemplação à corrente rápida das coisas deste mundo e o isola diante de si: este objeto único, que nesta fuga universal não era senão um átomo invisível, a seus olhos se torna o representante do todo, o equivalente das coisas inumeráveis situadas no espaço e no tempo;




Artur Schopenhauer - O mundo como vontade e representação - livro 3.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Fala o sábio


Estranho para o povo, mas para ele útil,

Sigo minha trilha, ora sol, ora nuvem -

Sempre acima deste povo!

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Para o Ano Novo


Eu ainda vivo, eu ainda penso: ainda tenho que viver, pois ainda tenho que pensar. Sum, ergo cogito: cogito, ergo sum [Eu sou, portanto penso: eu penso, portanto sou]. Hoje, cada um se permite expressar o seu mais caro desejo e pensamento: também eu, então, quero dizer o que desejo para mim mesmo e que pensamento, este ano, me veio primeiramente ao coração - que pensamento deverá ser para mim razão, garantia e doçura de toda a vida que me resta! Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessario nas coisas: - assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas. Amor Fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!



F.Nietzsche - A Gaia Ciência, 276

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Rubáiyát


Omar Kháyyám nasceu na Pérsia no ano de 1040. além de poeta foi matemático e astronomo. Sua filosofia é imediatista. Só existe, só vale o momento presente. O passado não volta mais, o futuro é incerto e virá provavelmente cheio de tristezas e decepções. Cumpre, pois, aproveitar intensamente o momento atual, que passa rápido como o esplendor transitório da rosa; é mister colhe-lo e aspirá-lo antes que murche.


Sua poesia, muito fatalista, está escrita em um pequeno livro, de grande profundidade chamado Rubáiyát e alguns trechos serão divulgados nesse tópico.


5
Procura ser feliz ainda hoje, pois não sabes o que te reserva o dia de amanhã. Toma uma urna cheia de vinho, senta-te ao clarão do luar e monologa: "Talvez amanhã a lua me procure em vão".


17
Os dias passam rápido como as águas do rio ou o vento do deserto. Dois há, em particular, que me são indiferentes: o que passou ontem, o que virá amanhã.


24
Eu cambaleava de sono, e a Sabedoria me disse: "Nunca, no sono, a rosa da felicidade floriu para ninguém. Por que te abandonares a esse irmão da morte? Bebe vinho! Tens muitos séculos para dormir!"


28
Convence-te bem do seguinte: Um dia tua alma abandonará o teu corpo e serás arrastado para trás do véu que flutua entre o universo e o incognoscível. Enquanto esperas, cuida de ser feliz!Não sabes de onde vens. Nem sabes para onde vais.


38
Esquece que ontem não lograste a recompensa que merecias. Sê feliz. Não lamentes nada. Não esperes nada. Tudo que deve acontecer está escrito no Livro que o vento da Eternidade folheia ao acaso.


57
No caminho do Amor nos perderemos e o Destino nos esmagará com o seu tacão. Ó rapariga, ó minha taça encantada, ergue-te e dá-me de beber em teus lábios, antes que eu me transforme em poeira.


69
Por que tanta suavidade, tanta ternura, no começo do nosso amor? Por que tantos carinhos, tantas delícias, depois? E... por que, hoje, o teu único prazer é dilacerar o meu coração? Por quê?


72
Todos os homens pretendem caminhar na estrada do conhecimento. Essa estrada uns a procuram, outros afirmam tê-la encontrado. Um dia, porém, uma voz proclamará: "Não há caminho, nem atalho!"


82
Delicia-te, ó meu irmão, com todos os perfumes, todas as cores, todas as músicas.Envolve de carícias todas as mulheres.Lembra-te de que a vida é fugaz e que breve voltarás ao pó.


domingo, 18 de novembro de 2007

CAMUS, A. O Mito de Sísifo (adaptação)


Os deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo incessantemente até o cimo de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso. Eles tinham pensado, com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.
Sísifo era o mais sábio e mais prudente dos mortais. Os deuses reprovaram, antes de tudo, sua leviandade para com eles. Sísifo espalhou os segredos deles. Egina, filha de Asopo, foi raptada por Júpiter. O pai, abalado por esse desaparecimento, se queixou a Sísifo. Este, que tomara conhecimento do rapto, ofereceu a Asopo orientá-lo a respeito, com a condição de que fornecesse água à cidadela de Corinto. Às cóleras celestes ele preferiu a bênção da água. Foi punido por isso nos infernos.
Sísifo ainda acorrentara a Morte. Plutão não pôde tolerar o espetáculo de seu império deserto e silencioso. Despachou o deus da guerra, que libertou a Morte das mãos de seu vencedor.
Sísifo, estando prestes a morrer, imprudentemente quis por à prova o amor de sua mulher. Ele lhe ordenou jogar o seu corpo insepulto em plena praça pública. Sísifo se recobrou nos infernos. Ali, exasperado com uma obediência tão contrária ao amor humano, obteve de Plutão o consentimento para voltar à terra e castigar a mulher. Mas, quando ele de novo pôde rever a face deste mundo, provar a água e o sol, as pedras aquecidas e o mar, não quis mais retornar à escuridão infernal. Os chamamentos, as iras as advertências de nada adiantaram. Ainda por muitos anos ele viveu diante da curva do golfo, do mar arrebentando e dos sorrisos da terra. Foi necessária uma sentença dos deuses. Mercúrio veio apanhar o atrevido pelo pescoço e, arrancando-o de suas alegrias, reconduziu-o à força aos infernos, onde seu rochedo estava preparado.
O desprezo pelos deuses, o ódio à Morte e a paixão pela vida lhe valeram esse suplício indescritível em que todo o ser se ocupa em não completar nada. É o preço a pagar pelas paixões deste mundo.
Sísifo, foi condenado nos infernos ao esforço de um corpo estirado para levantar a pedra enorme, rolá-la e fazê-la subir uma encosta, tarefa cem vezes recomeçada. Vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de uma espádua que recebe a massa recoberta de barro, e de um pé que a escora, a repetição na base do braço, a segurança toda humana de duas mãos cheias de terra. Ao final desse esforço imenso, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, o objetivo é atingido. Sísifo, então, vê a pedra desabar em alguns instantes para esse mundo inferior de onde será preciso reerguê-la até os cimos. E desce de novo para a planície.
A cada um desses momentos, em que ele deixa os cimos e se afunda pouco a pouco no covil dos deuses, ele é superior ao seu destino. É mais forte que seu rochedo. A lucidez que devia produzir o seu tormento consome, com a mesma força, sua vitória. Não existe destino que não se supere pelo desprezo.
Se a descida, assim, em certos dias se faz para a dor, ela também pode se fazer para a alegria. Sísifo indo outra vez para seu rochedo. "Acho que tudo está bem". Assim, expulsa deste mundo um deus que nele havia entrado com a insatisfação e o gosto pelas dores inúteis. Faz do destino um assunto do homem e que deve se acertado entre os homens.
Seu destino lhe pertence. Seu rochedo é sua questão. Da mesma forma o homem absurdo, quando contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. Ele se tem como senhor de seus dias.
Assim, convencido da origem toda humana de tudo o que é humano, cego que quer ver e que sabe que a noite não tem fim, ele está sempre caminhando. O rochedo continua a rolar.
Sísifo no sopé da montanha! Sempre reencontra seu fardo.
Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também acha que tudo está bem. A própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

O Homem Absurdo - A. Camus


O homem absurdo é aquele que não acredita no eterno. Vive sua vida sem se preocupar com o que irá acontecer depois da morte. Suas características são a coragem e o raciocínio. A coragem ensina a ficar satisfeito com o que tem e a viver sem recursos; o raciocínio aponta seus limites.

A honestidade do homem absurdo não está na obediência às regras convencionais, mas sim no respeito às normas que ele próprio dita.

Todas as morais são baseadas na idéia de que um ato tem obrigatoriamente conseqüências. O homem absurdo aceita com serenidade essas conseqüências e está pronto a pagar por elas.
O espírito absurdo não procura regras morais, mas simplesmente imagens das vidas humanas.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Argumentos

Um argumento é uma série concatenada de afirmações com o fim de estabelecer uma proposição definida.
Existem vários tipos de argumento; iremos discutir os chamados dedutivos. Esses são geralmente vistos como os mais precisos e persuasivos, provando categoricamente suas conclusões; podem ser válidos ou inválidos.
Argumentos dedutivos possuem três estágios: premissas, inferência e conclusão. Entretanto, antes de discutir tais estágios detalhadamente, precisamos examinar os alicerces de um argumento dedutivo: proposições.

Proposições

Uma proposição é uma afirmação que pode ser verdadeira ou falsa. Ela é o significado da afirmação, não um arranjo preciso das palavras para transmitir esse significado.
Por exemplo, “Existe um número primo par maior que dois” é uma proposição (no caso, uma falsa). “Um número primo par maior que dois existe” é a mesma proposição expressa de modo diferente.
Infelizmente, é muito fácil mudar acidentalmente o significado das palavras apenas reorganizando-as. A dicção da proposição deve ser considerada como algo significante.
É possível utilizar a lingüística formal para analisar e reformular uma afirmação sem alterar o significado; entretanto, aqui não se pretende tratar de tal assunto.

Premissas

Argumentos dedutivos sempre requerem um certo número de “assunções-base”. São as chamadas premissas; é a partir delas que os argumentos são construídos; ou, dizendo de outro modo, são as razões para se aceitar o argumento. Entretanto, algo que é uma premissa no contexto de um argumento em particular, pode ser a conclusão de outro, por exemplo.
As premissas do argumento sempre devem ser explicitadas, esse é o princípio do audiatur et altera pars (expressão latina que significa “a parte contrária deve ser ouvida”). A omissão das premissas é comumente encarada como algo suspeito, e provavelmente reduzirá as chances de aceitação do argumento.
A apresentação das premissas de um argumento geralmente é precedida pelas palavras “Admitindo que...”, “Já que...”, “Obviamente se...” e “Porque...”.
É imprescindível que seu oponente concorde com suas premissas antes de proceder com a argumentação.
Usar a palavra “obviamente” pode gerar desconfiança. Ela ocasionalmente faz algumas pessoas aceitarem afirmações falsas em vez de admitir que não entendem por que algo é “óbvio”. Não hesite em questionar afirmações supostamente “óbvias”.


Inferência

Umas vez que haja concordância sobre as premissas, o argumento procede passo a passo através do processo chamado inferência.
Na inferência, parte-se de uma ou mais proposições aceitas (premissas) para chegar a outras novas. Se a inferência for válida, a nova proposição também deve ser aceita. Posteriormente essa proposição poderá ser empregada em novas inferências.
Assim, inicialmente, apenas podemos inferir algo a partir das premissas do argumento; ao longo da argumentação, entretanto, o número de afirmações que podem ser utilizadas aumenta.
O processo de inferência é comumente identificado pelas frases “conseqüentemente...” ou “isso implica que...”.

Conclusão

Finalmente se chegará a uma proposição que consiste na conclusão, ou seja, no que se está tentando provar. Ela é o resultado final do processo de inferência, e só pode ser classificada como conclusão no contexto de um argumento em particular.
A conclusão se respalda nas premissas e é inferida a partir delas. Esse é um processo sutil que merece explicação mais aprofundada.

A implicação em detalhes

Evidentemente, pode-se construir um argumento válido a partir de premissas verdadeiras, chegando a uma conclusão também verdadeira. Mas também é possível construir argumentos válidos a partir de premissas falsas, chegando a conclusões falsas.
O “pega” é que podemos partir de premissas falsas, proceder através de uma inferência válida, e chegar a uma conclusão verdadeira. Por exemplo:
– Premissa: Todos peixes vivem no oceano.
– Premissa: Lontras são peixes.
– Conclusão: Logo, lontras vivem no oceano.
Há, no entanto, uma coisa que não pode ser feita: partir de premissas verdadeiras, inferir de modo correto, e chegar a uma conclusão falsa.
O fato de um argumento ser válido não significa necessariamente que sua conclusão é verdadeira, pois pode ter partido de premissas falsas.
Um argumento válido que foi derivado de premissas verdadeiras é chamado “argumento consistente”. Esses obrigatoriamente chegam a conclusões verdadeiras.